O propósito da vida

Hunter S. Thompson foi um jornalista e escritor, criador do estilo de escrita conhecido como Jornalismo Gonzo.
Em um desses dias, fuçando na internet – clicando de um site em outro e outro e outro, achei essa matéria sobre uma carta que Hunter S. Thompson (então com 22 anos) havia escrito para seu amigo Hume Logan, o qual pediu conselhos de vida. Essa carta pode ser encontrada no livro Letters to Note.

A surpresa dessa matéria não poderia ter sido melhor. A carta que Hunter escreve parece falar com qualquer pessoa e seus conselhos são tão assertivos que eu tive que traduzir e compartilhar.

Querido Hume,

Você pede por um conselho: ah, que coisa mais humana e perigosa para se fazer! Porque dar conselho a um homem que pergunta o que fazer com sua vida implica em algo bem próximo de egomania. Presumir em apontar para alguém o objetivo certo e final – apontar um dedo trêmulo na direção CERTA é algo que apenas um tolo faria.

Eu não sou um tolo, mas respeito sua sinceridade ao me pedir conselho. Porém peço a você que, ao ouvir o que eu disser, lembre que todo conselho é apenas um produto daquele que o fornece. O que é a verdade para um, pode ser um desastre para o outro. Eu não vejo a vida através dos seus olhos e nem você através dos meus. Se eu tentasse te dar um conselho específico, seria como um cego conduzindo o outro.

“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz, ou pegar armas em um mar de angústias…” (Shakespeare)

E, de fato, esta É a questão: flutuar com a maré ou nadar em direção a um objetivo. É uma escolha que nós todos devemos fazer consciente ou inconscientemente em algum momento de nossas vidas. Tão poucas pessoas entendem isso! Pense em cada decisão que você tomou que teve uma influência no seu futuro: eu posso estar errado, mas não vejo isso como nada além de uma escolha, mesmo que indireta, entre duas coisas que mencionei: flutuar ou nadar.

Mas porque não flutuar se você não tem um objetivo? Esta é mais uma questão. É inquestionavelmente melhor aproveitar o flutuar do que nadar para a incerteza. Então, como alguém acha um objetivo? Não um castelo nas estrelas, mas algo real e tangível. Como alguém pode ter certeza de não estar atrás da “montanha de doces” – um objetivo sedutor e doce que tem pouco sabor e nenhuma substância?

A resposta – e, de um certo modo, a tragédia da vida – é que procuramos entender o objetivo e não o indivíduo. Nós estabelecemos um objetivo que demanda que façamos certas coisas, e nós fazemos essas coisas. Nós nos ajustamos às demandas de um conceito que NÃO PODE ser válido. Quando você era jovem, digamos que queria ser um bombeiro. Eu me sinto razoavelmente seguro em dizer que você não quer mais ser um bombeiro. Por quê? Porque a sua perspectiva mudou. Não foi o bombeiro quem mudou, mas você. Toda pessoa é a soma total de suas reações à experiência. Conforme suas experiência mudam e multiplicam, você se torna uma pessoa diferente e, portanto, suas perspectivas mudam. E isso vai acontecendo. Toda reação é um processo de aprendizado; toda experiência significante altera sua perspectiva.

Então, seria bobagem ajustarmos nossas vidas às demandas de um objetivo do qual vemos um diferente ângulo a cada dia, não seria? Como poderíamos esperar realizar qualquer coisa além de uma neurose galopante?

A resposta, então, não deve ser focada em objetivos – pelo menos não em objetivos intangíveis. The answer, then, must not deal with goals at all, or not with tangible goals, anyway. Levaria resmas de papel para desenvolver esse assunto por completo. Deus sabe quantos livros foram escritos sobre “o significado do homem” e esse tipo de coisa, e Deus sabe quantas pessoas já ponderaram sobre o assunto (eu uso o termo “Deus sabe” apenas como expressão). Há pouco sentido na minha tentativa em te dar isso em poucas palavras, porque eu sou o primeiro a admitir a minha absoluta falta de qualificações para reduzir o sentido da vida em um ou dois parágrafos.

Vou me desviar da palavra “existencialismo”, mas você pode mantê-la em mente como referência. Você pode tentar também ler “Being and Nothingness” do Jean-Paul Sartre e “Existentialismo”From Dostoyevsky to Sartre”. São apenas sugestões. Se você está genuinamente satisfeito com o que você é e com o que está fazendo, deixe estes livros longe (não procure sarna para se coçar). Mas de volta à resposta. Como eu disse, colocar nossa fé em objetivos tangíveis me parece, na melhor das hipóteses, imprudente. Nós não nos esforçamos para ser bombeiros, nem banqueiros, nem policiais, nem médicos. NÓS NOS ESFORÇAMOS PARA SER NÓS MESMOS.

Não me entenda mal. Eu não quero dizer que não podemos SER bombeiros, banqueiros ou médicos – mas que precisamos fazer o objetivo se adaptar ao indivíduo e não fazer o indivíduo se adaptar ao objetivo. Em todas as pessoas, a hereditariedade e o ambiente se combinam para produzir alguém com certas habilidades e desejos – incluindo uma necessidade profundamente enraizada de funcionar de tal maneira que sua vida seja SIGNIFICATIVA. O indivíduo deve SER algo; ele tem que importar.

Portanto eu vejo que a fórmula segue da seguinte forma: um indivíduo deve escolher um caminho que deixe que suas HABILIDADES funcionem com eficiência máxima para que seus DESEJOS se concretizem. Fazendo isso, ele completará uma necessidade (dando a ele uma identidade ao funcionar dentro de um padrão para realizar seu objetivo), ele evitará frustar seu potencial (escolhendo um caminho em que não há limite em seu auto-desenvolvimento), e evitará o terror de ver seu objetivo definhar ou perder o charme conforme ele chega mais perto deste (ao invés de se adaptar às demandas do que ele busca, ele faz com que o seu objetivo se adapte às suas habilidades e desejos).

Resumindo, o indivíduo não dedica sua vida a alcançar um objetivo pré-definido, mas escolhe um estilo de vida que ele SABE que irá gostar. O objetivo é absolutamente secundário: é o caminhar até o objetivo que é importante. E parece quase ridículo dizer que um indivíduo PRECISA caminhar dentro de um padrão de sua escolha; pois deixar outra pessoa definir seus próprios objetivos é entregar um dos aspectos mais significativos da vida – o ato da vontade, o qual faz de um homem um indivíduo.

Vamos supor que você tenha que escolher oito caminhos para seguir (todos pré-definidos, claro). E vamos supor que você não vê propósito em nenhum destes oito caminhos. ENTÃO – e aqui está a essência de tudo o que eu disse – você DEVE ENCONTRAR UM NONO CAMINHO.

Naturalmente, não é tão fácil quanto parece. Você viveu uma vida relativamente limitada, teve uma existência vertical e não horizontal. Então não é difícil entender porquê você se sente deste jeito. Mas aquele que procrastina sua ESCOLHA, inevitavelmente tem sua escolha feita para ele.

Se agora você se coloca entre os desencantados, então você não tem escolha a não ser aceitar as coisas como elas são, ou seriamente procurar outra coisa. Mas se atente ao procurar por objetivos: procure por um estilo de vida. Decida como você quer viver e então veja o que você pode fazer DENTRO deste estilo de vida. Mas você diz “Eu não sei onde procurar; não sei o que procurar.”

Aqui está o cerne. Vale a pena desistir do que eu tenho para procurar algo melhor? Eu não sei – vale? Quem pode tomar essa decisão além de você? Mesmo DECIDINDO PROCURAR, você ainda tem um longo caminho ao fazer a escolha.

Se eu não terminar com este impasse, vou acabar escrevendo um livro. Espero que não seja tão confuso quanto parece em um primeiro momento. Tenha em mente, claro, que este é o MEU JEITO de olhar as coisas. Eu penso que isso é bem aplicável de uma forma geral, mas talvez você não pense assim. Cada um de nós deve criar nosso próprio credo – este é apenas o meu.

Se alguma parte disso não fizer sentido, por favor, me fale. Eu não estou tentando fazer você sair na estrada procurando pela Valhalla, mas apenas pontuando que não é necessário aceitar as escolhas que lhe foram dadas pela vida que você já conhece. Há mais do que isso – ninguém TEM QUE fazer algo que não queira pelo resto de sua vida. Mas, de novo, se é isso que você for acabar fazendo, por favor, se convença que você TEVE que fazê-lo. Você terá muita companhia.

É isso por enquanto. Até ouvir de você de novo, continuo,

seu amigo,

Hunter

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